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#beda: pra viajar é só preciso (boa) vontade
quarta-feira, 24 de agosto de 2016 at 10:30
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Quando estava em Berlim, conheci um grupo de canadenses que tinha acabado de se formar na faculdade e em uma conversa um deles falou que parecia que eu viajava muito. Eu disse que ele provavelmente achava que eu era muito mais nova do que a realidade  (haha, pelo menos 10 anos!), mas a verdade é que muita gente que me conhece também acha.

Na roça a mentalidade sempre foi de que pra ser alguém na vida, tinha que comprar casa e carro e na minha época apenas 4 pessoas da minha turma fizeram um intercâmbio, eu inclusa nessa conta. Na época eu já achava no mínimo estranho, mas hoje eu acho um absurdo, numa escola particular, onde a maioria tinha condições financeiras  (tanto é que algumas pessoas foram pra Disney - até mais de uma vez!), que ninguém tivesse o menor interesse de abranger seus horizontes!

Eu tenho plena consciência de que falo de um ponto de vista privilegiado, cresci numa família intelectual, onde meus pais podiam fazer escolhas como comprar comidas saudáveis ao invés de comidas processadas, que mandou 2 filhos pra escola particular e pro curso de inglês, mas por conta dessas escolhas também não tinha dinheiro sobrando pra bancar luxos.

Confesso que tive muita inveja quando todos os meus amigos do prédio foram pra Disney. Nunca foi um sonho, mas quem é que não quer se divertir com os amigos em algo diferente? Mas eu jamais trocaria pela viagem que fiz depois, e que certamente ajudou a trilhar o caminho que eu queria pra minha vida.

Só com quase 30 anos fui fazer minha primeira viagem grande inteiramente a lazer. Antes disso, toda viagem que quis fazer teve que envolver um elemento free. Não digo que as viagens não tenham custado nada, mas o dinheiro que eu tive que tirar do bolso foi muito menos do que muita gente imagina.


Eu sabia que pra conseguir fazer um intercâmbio eu teria que diminuir os custos drasticamente pro meu pai se sentir confortável de pagar. Minha chance veio com o intercâmbio do Lions, que "banca" a acomodação e a alimentação. Mas pra isso eu teria que ser uma boa aluna no curso de inglês. Ter boa participação e relativamente boas notas (embora alunos repetentes não fossem excluídos da seleção se mostrassem que poderiam ser bons representantes). E foi o que aconteceu. Fui escolhida pra ir pro intercâmbio, sem sequer poder escolher o lugar pro qual eu seria mandada. É a situação ideal? Não é, mas é a oportunidade que eu tive de fazer aquilo que eu queria. No fim foi, considerando até hoje, a melhor experiência da minha vida e eu não trocaria isso por nada, nem por ter dinheiro pra ter feito do jeito que eu achava que seria o ideal naquele momento.


Quando estava na faculdade passei a oportunidade de ir pro Japão logo depois que meu pai morreu, mas acho que as coisas acontecem do jeito que tem que ser. Um ano depois disso tudo, eu estava embarcando pra ir trabalhar na Disney.

Enquanto nunca tive o sonho de conhecer a Disney, sempre quis ter a experiência de trabalhar fora. E o programa da Disney foi o primeiro que conheci, e o que mais me chamou a atenção. Poder trabalhar na Disney, ter acesso ilimitado nessa época, e ainda ser paga por isso era a maior barganha que eu poderia imaginar.

Na ponta do lápis, essa viagem saiu "de graça". Eu tinha que ter o dinheiro pra "sair" daqui, mas o dinheiro lá me bancava com folga, e economizando direito, trabalhando certinho, dava pra trazer o dinheiro gasto com passagem e seguro de volta. Foi o que fiz, embora no fim da viagem minha mãe tivesse me "liberado" de pagar os custos de volta pra ela (desconfio que ela só queria que eu levasse o programa a sério).


2 anos depois, quando descobri o intercâmbio da USP, tive que arregaçar as mangas e ir a luta pelo dinheiro pra morar no Canadá. A parte fácil foi poder ir pro Japão pra juntar o dinheiro, mas trabalhar na linha de montagem não foi a coisa mais legal que já fiz, nem de longe. Mas era a oportunidade que eu tinha. Foram 4 meses de horror e  depressão, não gosto nem de lembrar muito o que sentia nessa época, mas mais uma vez provei pra mim, e principalmente pra quem duvidou de mim ("alá a patricinha que nunca pegou na enxada tentando sobreviver no chão de fábrica"), que quando se tem determinação e vontade, tudo é possível. Eu passei fome e muito cansaço, tomei muito relaxante muscular pra dor e pra tentar dormir melhor, mas valeu a pena, por tudo que pude viver no interior do Quebec depois.


Passei 5 anos sem mal sair do estado antes de ter minhas merecidas férias nos EUA. Não caiu do céu, não foi barato. Mas a vida é feita de escolhas. Preferi economizar em algumas coisas pra poder aproveitar outras, como qualquer um. Fiz muita pesquisa, operei tudo na unha, tive controle de todos os gastos. Valeu muito a pena, todo o trabalho mental, a economia com as coisas e a viagem toda. Fui bem realista com o que eu podia fazer com o dinheiro que eu tinha, escolhi por exemplo acomodações mais simples, voos mais "chatos" (gru-mia via mao - Manaus durante o dia), andar de ônibus até em Orlando, pesquisar muito sobre como economizar nas atrações de NYC. As coisas não caem do céu mesmo.


Quando resolvi tirar um tempo do trabalho, em 2015, eu já tinha uma reserva pra me manter. Planejamento é tudo! Eu já sabia que eu queria viajar, e quis o destino que um ano antes o Henrique entrasse na minha vida pra ser a ponte pra esse desejo, que eu ainda nem tinha naquela época!

Claro que pude contar com economias, mas decidi ir pra esse voluntariado por muitas razões, principalmente a financeira. Todas as outras opções que vi eram mais caras. E sabia que, apesar da "bolsa voluntário" ser ínfima, com um pouco de vontade eu ainda conseguiria fazer muitas outras coisas.


E deu certo. Praticamente fiz 2 viagens sem encostar no dinheiro que tinha na poupança e só gastei mais porque exatamente eu tinha sido disciplinada o suficiente com minhas finanças. Não vou dizer que não passei vontades, até agora penso em várias coisas que eu queria comprar que só tem na Europa, mas as memórias que fiz valem muito mais, até os "perrengues" em que a gente se metia exatamente porque não queria gastar!


Acho que como tudo na vida, não adianta ficar reclamando que você não viaja se efetivamente não faz nada pra mudar isso. Viajar exige planejamento e economia, mas é bem possível e mais fácil do que se imagina. E ninguém precisa ficar preso em um roteiro, cada viagem é única e é a gente que faz o momento ser especial.

Em tempo, sei que andei falando no Twitter que a viagem pra Tokyo vai sair muito cara pras olimpíadas de 2020, mas vi essa semana mesmo que a gente tem 4 anos pra economizar, e se fizer direito, não sai tão pesado. Começando agora, em 48 meses, ou 2 anos, metade do tempo que leva pros próximos jogos, se economizar 350 golpinhos por mês já será o suficiente para cobrir os gastos básicos  (passagem, hotel, ingressos e alimentação) pra todos os dias das olimpíadas! E a partir daí são mais 2 anos pra economizar pra levar um dinheiro pra gastar, porque afinal das contas, é um país bem diferente do nosso, muito longe, e acho que tentar trazer um pedacinho de lá em souvenires vale a pena :)


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