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segunda-feira, 10 de abril de 2017 at 10:30
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o que ficou sobre o ano sabático, o voluntariado e a primeira vez na europa


Apesar de ter um blog que começou pra contar sobre as minhas peripécias na terra do nosso querido príncipe George, sinto que falta falar de uma forma resumida pra quem procura informações sobre isso mas de uma forma resumida e uma visão um pouco distanciada do que foi toda essa experiência.

VOLUNTARIADO EM CAMP HILL


Quando resolvi me jogar nessa ideia, não sabia nada sobre camp hill. Li um pouco sobre nas páginas oficiais, mas não achei nenhum relato pra me preparar para o que viria.

Eu já queria fazer voluntariado, mas sabia que tinha que achar a oportunidade certa pra não me traumatizar e não voltar correndo no primeiro voo de volta.

Para isso foi importantíssimo ter a companhia do Henrique T. por lá, passando exatamente pelo o que eu estava passando.


Eu acho que dei muita sorte em vários aspectos. O camp hill escolhido tem um regime de trabalho bem certinho, são 40h por semana, com pelo menos 2 folgas fixas, o que é uma raridade para camp hill de uma forma geral.

Também dei sorte que na minha casa de trabalho eu tinha a melhor coordenadora do campus, e o apoio de outro brasileiro super veterano de causa. Eu tinha muito apoio pra tudo, como voluntária, e nenhum dos meus direitos foram jamais postos em risco (como eu ouvi dizer que pode acontecer).

O trabalho em si, a primeira vista, pode assustar. Eu trabalhava com alunos mais velhos, entre 19 e 23 anos, somente meninos. Eu tinha que ajudar eles a fazerem o básico como escovar os dentes, comer usando os talheres direito, fazer tarefas dentro da casa e até dar banho. E eles são homens jovens, então rolava até supervisionar uns momentos mais ~íntimos (mas com todo o respeito).

Eu também tinha que dar suporte ~acadêmico, durante as aulas, que eu achei que seria o trabalho mais legal, mas no fim, como o currículo é "24h", eu descobri que na aula mesmo eles tinham um suporte para aprender a lidar com a vida em geral, e que era fora da sala de aula que a gente fazia mais coisas e aprendia a se portar no mundo real, o que foi uma grande descoberta pra mim, porque eu não imaginava que poderia ter tanta satisfação nessa parte do trabalho.


Satisfação e sentimento de dever cumprido para com o mundo era o que eu procurava nesse voluntariado e foi exatamente o que eu achei. É incrível como você se envolve com os alunos e com a educação de outros seres humanos que dependem da boa vontade alheia para "funcionarem corretamente" no nosso mundo e cada conquista traz uma felicidade verdadeira!

Algumas pessoas questionaram fazer um voluntariado numa parte tão rica do mundo, mas acho que você tem que escolher suas batalhas. Uma amiga minha uma vez fez um voluntariado no Camboja, mas não conseguiu terminar, a pobreza era extrema, e passou até por uma situação de furto dentro de casa. A situação acabou sendo extrema demais e ela resolveu voltar muito antes do previsto. Eu tinha medo de isso acontecer e eu ficar frustrada, então escolhi algo que parecia um pouco mais seguro e foi o que deu certo. Sinto saudades de todos, do trabalho aos alunos, e principalmente do sentimento de completitude que o voluntariado trazia no dia a dia.


Sobre a moradia, infelizmente o camp hill não tem estrutura para agrupar todos os voluntários em uma casa só, o que eu acho que acaba sendo negativo na experiência da vivência porque afasta as pessoas. O meu grupo era bom e sempre saia junto, ou pelo menos se comunicava, mas ai vai depender muito das pessoas. As casas em si são ok, algumas são mais velhas que as outras, mas todas tem estrutura completa, com cozinha e lavanderia, além de banheiro coletivo para os voluntários. O nosso era grande, mas não era limpo sempre (porque depois de um tempo eu e o Henrique cansamos de ser os únicos que limpavam e paramos de limpar e ai os outros se tocaram que tinham que ajudar, mas só limpavam de vez em quando e a gente também) e ai vai depender das pessoas.

O uso da cozinha é o que eu achava mais complicado, porque morávamos em casa que tinha aluno e a gente só podia usar quando a cozinheira não estivesse usando. A gente tinha acesso irrestrito à dispensa, então no fim eu preferia comer na casa onde eu trabalhava, porque me sentia mais parte da casa, gostava mais das comidas disponíveis (cada casa tinha seu cardápio) e a cozinha era bem mais moderna. O que também tinha lá suas desvantagens, porque apesar de ser perto, eu tinha que sair de casa, na Inglaterra é sempre frio, chove muito e as vezes você tá com preguiça de ter que interagir com os coleguinhas...

O camp hill em si, por se tratar de uma comunidade, ou seja, um campus do tamanho de um sítio grande, não fica dentro da cidade. A gente não tinha acesso aos automóveis do campus e tinha que andar ou pegar ônibus, mas a condução lá também não é barata. Nos restava ir andando até a cidade quando necessário, uma caminhada de meia hora, pela rodovia ou por um bosque. A Inglaterra é um lugar bem seguro e eu nunca vi nada suspeito, e sempre via famílias pelo caminho. O chato é que a pé não dava pra fazer grandes compras e estávamos restritos a fazer as coisas perto de casa. Pra nossa sorte, na mesma época haviam outros brasileiros em outro camp hill perto que tinham acesso aos veículos da comunidade deles, então as vezes a gente combinava de sair junto (quando as folgas calhavam) e até ir pra balada.


A "desvantagem" de trabalhar em escola é um calendário mais rígido, pois tínhamos que obedecer ao calendário escolar e porque em geral são pessoas com comportamentos mais desafiadores do que os de comunidades de adultos. Mas tínhamos as vantagens das férias escolares, que aconteciam por pelo menos 10 dias a cada 2 meses, e éramos remunerados mesmo sem trabalhar (hoje em dia eles mudaram um pouco e os voluntários tem que trabalhar em algumas férias) - e ainda ganhávamos voucher do super mercado para fazer compras de comidas já que nossas casas ficavam sem comida.

O caminho das pedras

Eu me inscrevi super tarde para o voluntariado no camp hill que escolhi, mas as inscrições começam em novembro pro ano letivo que começa em setembro do ano seguinte. Para se inscrever é preciso preencher um formulário em inglês e enviar pro e-mail, tudo nessa página.

Como disse, me inscrevi super tarde, então não custa nada tentar mandar um e-mail mesmo agora, quando eles dizem que já estão fazendo a seleção.

Para participar, não precisa de muito: ser maior de idade, ter uma ficha de antecedentes criminais limpa (eles pedem aquela que dá pra tirar online - acho que é a estadual) e ter vontade de tentar se comunicar em inglês - ou seja, fluência não é requisito!

Uma vez selecionado, eles marcam uma entrevista por Skype, com o RH e os responsáveis pelo "care". É uma entrevista descontraída, em que eles querem saber se você tem mesmo vontade de ajudar o próximo e está preparado para uma vida de trabalho intensa (no sentido de que toda a hora no trabalho pode ser muito trabalho, não de que são muitas horas, até porque são só 40h semanais e não existe hora extra para voluntários). Não é preciso ter nenhuma experiência prévia, mas sim muita boa vontade e uma mente aberta para ajudar pessoas com necessidades especiais.

Se você passar na entrevista, eles ainda vão pedir 2 referências. Eles pedem o contato e também pedem para eles preencherem uma ficha. Na verdade acho que eles nunca ligaram pras minhas, mas é bom avisar quem você vai dar de referência pra ficarem avisados.

Depois eles mandam uma carta de aceitação e um documento para levar ao consulado.

Para solicitar o visto* de voluntariado, é preciso criar um login na página da imigração e preencher uns formulários, além de pagar as taxas de processamento de visto - e agendar um dia para levar os documentos no centro de visto - e a taxa do serviço nacional de saúde. Ao todo, só com essas taxas eu gastei quase R$ 2.000 (pagos no cartão pelo próprio site).

O visto é processado pelo consulado em Bogotá, então aqui no Brasil o solicitante vai entregar os formulários impressos, a carta do empregador e o passaporte e cadastrar a biometria. Após todos os documentos estarem em ordem, eles cadastram o seu e-mail e é por lá que eles avisam todos os passos tomados, desde quando o passaporte chega em Bogotá até o retorno. É possível pedir a entrega via sedex ou então ir buscar no centro de visto (eu preferi ir lá buscar). O meu processo levou umas 3 semanas, que é o tempo estimado que o site me dava na época mesmo.

Com o visto em mãos, eu marquei a passagem de ida e volta com validade de 1 ano. É importante saber se a passagem que está comprando tem esta validade mesmo, pois essas passagens promocionais que vemos por ai em geral são as de curta duração, de até 3 meses. A passagem de 1 ano tem que ter a volta remarcada pois pelas normas de aviação não é possível marcar o retorno com mais de 300 dias de antecedência da emissão. E as companhias aéreas cobram por essa remarcação. Um bom agente vai então marcar o retorno com a data com a melhor tarifa, porque você já vai ter esse gasto (é bom perguntar pro seu agente qual é a taxa cobrada pra cada companhia).

Na época a melhor tarifa era a Air Europa, que é uma baixo custo espanhola que tem voos intercontinentais. Mas eu não a recomendo pois os equipamentos são antigos e simples, e o serviço é péssimo. No voo de ida houve um atraso de 3 horas em que fomos praticamente mantidos em cativeiro dentro da aeronave sem nenhuma explicação e até sem água (só deram água quando os passageiros reclamaram). Com isso perdi minha conexão em Madri, para Londres, e quando cheguei não tinha uma pessoa pra me explicar o que eu deveria fazer. Depois de passar pela imigração também não tinha uma pessoa com a informação correta sobre as malas (que deveriam ser despachadas direto para o destino final) e eu embarquei sem saber se eu as veria em Londres. E no voo de volta a mulher do check in em Gatwick foi super grossa e burra e eu tive que ficar explicando como ela deveria fazer o trabalho dela, porque ela não podia nem prestar atenção no anuncio nas suas costas de que eu podia levar mala de mão de até 10kgs... Enfim, não usem Air Europa, é uma bosta.

VIVER NA EUROPA


Vou confessar que eu não sabia nada de Europa antes de ir, mas achava que sabia. Simplesmente porque conheço bem a América e achava que seria bem parecido.


Mas não é!

E isso não é necessariamente ruim. Verdade que a primeira impressão não foi boa, pois chegamos 1 semana antes das aulas começarem, para termos treinamentos, e as casas estavam todas um caos. Sujas, desorganizadas, abandonadas (pois eles não tem alojamento durante o verão, então não fica ninguém lá por pelo menos 1 mês).

Mas isso foi o superficial. Eu entendi como eu era super americanizada antes de viajar pra Europa mas nunca tinha percebido. Na América tudo é novo e asséptico, temos uma mania de limpeza, principalmente no Brasil (por sermos um país tropical a higiene é primordial para evitar doenças "naturais), enquanto que na Europa não existe tanta preocupação com o novo, e sim uma preocupação maior com a função das coisas e evitar o desperdício (aquela coisa de consciência da quantidade porque em uma época houve pouca oferta dos itens mais básicos, etc etc).


Mas o que mais me impactou foi como a Europa é assistencialista, e como eles não veem isso como algo que ameace o capitalismo ou a democracia deles. Eles acham natural que o governo dê apoio não só na saúde e na educação, mas também assistam famílias com pessoas com deficiência, não importando a classe social. Todo mundo tem direito a assistência para tratar das necessidades especiais, por exemplo. As famílias recebem subsídio para colocarem seus filhos em escolas especiais, para fazer tratamentos e tem apoio de uma assistente social periodicamente.

Também me surpreendeu como a Europa é diversa em etnias. Claro que o Brasil também é, mas sempre ouvi sobre a xenofobia, então não imaginava que realmente o mundo estivesse ali. Mas não só isso, as pessoas se mudam de mala e cuia pra Europa e se tornam europeias mesmo!

Acho que todo mundo deveria ter essa experiência de ir para um lugar onde o governo consegue cuidar da população pra entender a importância de dar assistência aos mais necessitados. Isso não é comunismo, isso é dar oportunidades a todos!


Ah, com isso também entendi como a Europa é um lugar com uma discrepância sócio-econômica muito menor que a nossa e como isso impacta a vida de todo mundo, gerando muito menos violência. Ok que tem terrorismo, mas o terrorismo tem origem política. Na rua existe uma sensação de segurança que é muito maior do que nos Estados Unidos, porque existe esse sentimento de que todo mundo está no mesmo barco e que todo mundo pode ascender pelo próprio esforço, que existe um amparo muito maior do Estado às pessoas mais vulneráveis.

Claro que existe um apelo ao consumo, pois a Europa é parte do capitalismo, mas é muito menos agressivo do que em outras partes do mundo, como no Japão. Faz parte do cotidiano do europeu o acesso a cultura e a história, e o consumo é só um acessório da vida deles. As coisas não são baratas, então eles tem que pensar no que investir e fazer compras enlouquecidamente não é uma prioridade.

TIRAR UM ANO SABÁTICO


Meu ano acabou sendo multiplicado, porque ele também começou antes do que eu planejava. Para que isso fosse possível, houve planejamento, economia e suporte da minha família. O ano sabático só pode ser uma realidade se você se organizar para tal e não é uma opção para todos, eu sei disso. Tenho muita sorte de contar com uma rede de apoio que me proporciona realizar meus sonhos, por mais modestos que sejam (em relação a esses anos sabáticos de viagem, curtição e gastação que se vê por ai). Mas acho que dentro do meu círculo social ele é sim possível, se a gente parar de se sabotar.

Eu estava infeliz com muitas coisas e a procura de um sentido para a vida, um propósito. Nesse quesito, fazer o voluntariado caiu como uma luva pra me ajudar a me re-centrar.

Eu também precisava de um tempo longe dessa vida de compromisso social. Não de ter que encontrar meus amigos, mas essa obrigação de ter uma carreira, de ter que marcar presença nos eventos da cidade, de ter uma agenda. Ir pra um lugar onde eu estava longe de tudo isso, onde nada acontecia, onde eu não tinha obrigação com ninguém, as vezes parecia desesperador, mas é o que eu precisava pra resetar essa "programação" vida. Eu gosto muito de morar em SP, mas as vezes a vida pode ser enlouquecedora, e me afastar foi importante pra entender o que era realmente importante.

E no fim, ganhar um sobrinho que não estava no planejamento, foi uma surpresa maravilhosa que valeu a pena ter que largar o voluntariado mais cedo e ficar em casa. Acho que no fim eu soube administrar os acontecimentos de uma forma tranquila porque tive tempo de repensar a vida e reavaliar as prioridades.

Mesmo que não haja dinheiro para grandes viagens, um período sabático faz bem pra todo mundo que se encontra nessa loucura de casa-trabalho-boleto pra pagar. Porque eu vejo muita gente insatisfeita com a vida, que tem muito mais momentos desagradáveis do que de prazer e a vida não é isso, a vida é pra ser vivida da melhor forma já que a gente só tem essa chance de ser feliz ;)


It's #beda time!!! Blog Every Day in April é uma proposta de blogagem pra agitar a blogosfera, onde a gente se propõe a tentar publicar pelo menos um post por dia o mês de abril inteiro. Se quiser saber mais, se juntar a galera ou só descobrir um monte de blog legal novo, clica no banner acima ;)

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that would be me. bye!

domingo, 2 de abril de 2017 at 09:00
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#beda: dia mundial de conscientização do autismo

Nesse dia 2, é declarado pela ONU, o dia mundial de conscientização do autismo.

Mas o que é exatamente o autismo? Em termos simplistas, é uma dificuldade de interagir socialmente com as pessoas a sua volta. Acredita-se que seja uma mutação genética, mas não a do tipo simples. Não é possível diagnosticar com exames genéticos devido a sua complexidade. Ser autista não significa ser anti social, porque não é uma escolha.

No Brasil não temos muito contato com pessoas com nenhum tipo de deficiência. É como se elas ficassem escondidas da sociedade, então acho natural que as pessoas não tenham muita informação sobre alguns tipos de necessidades especiais, principalmente as intelectuais e sociais. Mas também acho que é nossa obrigação procurar mais informação e não fazer piada sobre as dificuldades alheias.

No camp hill, acredita-se que o core da pessoa, ou a alma (se quiserem) é sempre perfeita e nosso corpo é somente um obstáculo ou uma missão que temos que conquistar para sermos pessoas melhores. Então temos sempre que estimular os alunos a sempre tentarem ser melhores, detalhe a detalhe. Trabalhei com autistas e sei que realmente, existe tanto mais do que o que a gente pode ver ali dentro!

Nesse dia as cidades demonstram seu apoio iluminando monumentos com luz azul. No Brasil já aconteceu com iluminação do Cristo e da Ponte Estaiada.


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quinta-feira, 5 de maio de 2016 at 08:09
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all good things...

... must come to an end.

E assim me despeço do meu voluntariado.

Mas o quê? Sim, daqui algumas horas estou indo embora do camp hill. Se quiser saber mais, cola lá no blog da viagem.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2015 at 10:30
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bate e volta de bath

Como prometido, vim contar um pouco sobre o bate volta que a gente resolveu fazer pra Bath. Bath é um balneário histórico, da época do Império Romano (Idade Média). Acreditava-se na propriedade curativa das águas da região, então foram construídos banhos publicos para o uso daqueles que tinham dinheiro para viajar e desfrutar dos banhos (naquela época banho era coisa de rico - e daí vem essa cultura de não tomar banho todo dia nesse continente).

Conhecer Bath estava na minha lista de coisas a fazer desde antes de chegar aqui, olhando no mapa nem parecia algo complicado de conseguir, mas ai quando chegamos, descobrimos que de Ringwood até lá era o maior rolê pra ir de ônibus - levava tanto tempo que só compensava se fosse pra dormir na cidade. E o transporte também saia caro. Mas pra nossa sorte, o pessoal da fazenda pode usar os carros de lá pra fazer coisas pessoais e num dia que calhou das folgas coincidirem, lá fomos nós.

Quer dizer, não foi exatamente planejado, porque saimos meio "tarde" daqui, já que na noite anterior a gente tinha saído e ido dormir tarde e meio que tinhamos desencanado de ir pra Bath...

De Ringwood a Bath levamos mais ou menos 1h30 por rodovias muitas vezes estreitas. As estradas daqui não são ruins, mas são bem diferentes do que estamos acostumados.

Bath fica num vale, então quando a gente foi se aproximando, já dava pra ver a cidade "lá de cima". Mesmo com o dia meio chuvoso, a cidade se destaca pelo uso da pedra branca, encontrada em abundância na região e utilizada pra quase tudo na arquitetura local.

Chegamos no final da tarde, e como em qualquer lugar, foi difícil achar estacionamento na rua de graça. Tudo é restrito! Optamos por um estacionamento coberto perto da Universidade, e como a cidade é pequena, pelo menos ainda estavamos perto do centro.

Fomos direto pro Mc Donald's porque só eu tinha conseguido comer alguma coisa antes de sair de casa.


Entramos, enfrentamos uma fila gigante, comemos... E o dia virou noite lá fora! Sério, tá foda essa coisa de escurecer cedo aqui, daqui a pouco meus shifts que começam as 14h serão considerados noturnos!!!

Já estavamos no centro, então saimos pra caminhar sem muito rumo. Resolvemos seguir até o rio pra ver se tinha algo de diferente. O incrível dessas cidades históricas é que tudo é interessante na rua <3



Na margem do rio Avon tem um parque que dee ser incrível de dia. De noite ele é meio assustador, tem umas esculturas que ficam parecendo gente no meio do mato - inclusive levamos susto de encontrar gente no parque, haha!



Como chegamos no fim do dia, não conseguimos entrar em nenhum banho romano =( Ainda existem 2 no centro da cidade, eu só queria olhar como era, mas foi interessante mesmo assim. Essas coisas parecem que emanam uma coisa importante só por serem tão antigas!



A arquitetura do centro é linda, mesmo as pontes são fantásticas! Quem sabe quando eu ficar velha e menos cri cri eu resolva voltar e me banhar num dos banhos romanos, haha!

O dia, claro, acabou num Starbucks. Como estava chuviscando, o dia não estava tão gelado, mas ficar na rua a tarde toda nos deixou com frio e tomamos algo quentinho antes de voltar pro carro.


A melhor parte mesmo desse passeio foi passar o tempo com esse pessoal (faltou a Aline, que estava trabalhando), conversar sobre tudo na vida, se conhecer um pouco melhor. Porque no fim das contas, são as pessoas que contam numa experiência dessas!

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segunda-feira, 28 de setembro de 2015 at 09:11
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agora vai... ?

Tudo o que eu queria é ver como era um dia de aula dos alunos daqui, né muita curiosidade de ver o que eles aprendem e tal. Então segunda era o dia!

O almoço durante a semana é caótico porque tem muita gente. São uns 8 alunos que dormem durante a semana, mais uns 9 que passam o dia no camp hill, fora todos os support workers que não podem deixar todos esses alunos sozinhos. Além de ajudar a comer, tem que supervsionar como e o que comem.

Na segunda chego logo depois dessa loucura, pra preparar os alunos para irem pra aula. Me deixaram com um menino com down e autismo. Ele é muito fofo! Estava com medo porque ele tem uma mochila laranja, que quer dizer que ele tem epilepsia e caso tenha um episódio, temos que administrar medicamento e chamar uma ambulância.

Tava indo tudo bem. Crianças com down em geral são um pouco mais devagar que as outras, então todo mundo já tinha saído, quando eu e a outra menina que geralmente trabalha com ele tentavamos fazê-lo levantar. Sem sucesso, Algum. Ele estava fechado no mundo dele e não queria se mover. Sem resposta.

Tentamos de tudo, frutas, comidas, brinquedos. Ele simplesmente não queria se mover! Tentamos músicas, sinais, linguagem verbal. Nada. Nada motivava o menino.

Passamos a tarde espancando o piano, cantando, conversando, e nada. Os outros alunos voltaram e não fez a menor diferença. Ele não queria nem comer, nem beber. Só balançar uma bolinha num cordão. Totalmente empacado.

Eu já tinha ouvido falar desses casos, mas nossa, nunca tinha visto acontecer! Nada mesmo motiva a pessoa a se mover, a sair de si!

A algazarra de alunos veio e foi e chegou a hora do jantar. Nem isso moveu o menino de lugar!

Desesperada, comecei a pensar que iamos passar a noite em claro na sala. Ai comecei a tentar outras coisas e cheguei no banho... E magicamente ele saiu de si, abriu um sorriso e levantou!!! Sério, é mágico quando uma coisa dessas acontece, ainda mais depois de CINCO HORAS tentando coisas em vão!

Como ele tem epilepsia, toma uns remédios bem fortes e não pode ficar de estomago vazio, então depois do banho (coloquei ele na banheira e dei banho enquanto ele ficava lá feliz na água) o Junior subiu com um sanduiche e conseguu fazê-lo comer para tomar remédio.

E ai que eu ia passar mais vários dias sem saber como era a sala de aula =(

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terça-feira, 22 de setembro de 2015 at 14:03
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pra quem viaja, não existe diferença entre fds e dia normal

Eu trabalho basicamente nos fins de semana. Sexta, sábado, domingo e segunda são meus dias de trabalho de verdade. E geralmente só a tarde.

Só sábado que trabalho de manhã. Das 9h30 as 21h30. Parece pesado, mas até agora está sendo sussa. Sábado é o dia mais calmo dos alunos, eles não tem nenhuma obrigação (domingo tem missa na capela de manhã e tem horário pra acordar, de sábado não tem), mas é mais puxado pra gente que trabalha, porque temos que dar atenção o tempo todo o dia todo paa os alunos e arranjar o que eles fazerem. Tem aluno que simplesmente não fica parado!

Eu cheguei já sabendo que iria levar uns alunos para fazer compras de manhã e de tarde. Dei o café da manhã pra um deles e dei uma enrolada até dar a hora de sair. Estava tudo bem. Passamos na casa onde eu moro para pegar outro aluno (e outro co worker) e fomos pro mercado.

Nesse meio do caminho, tudo parecia bem. Até que do nada eu levei um puta tapa na cara!!! Nossa, na hora, além da dor, eu fiquei é puta. Porra! Agredida por nada! Mas ai tenho sempre que lembrar: eles não fazem por querer. Alguma coisa no meio do caminho deve ter irritado ele e foi a forma de reagir. É estranho, só estando aqui para compreender que realmente, pessoas com necessidades especiais pensam e reagem de uma forma diferente e elas não fazem de propósito. Na maior parte do tempo, elas são comportadas (é diferente de alguém que tem plenas capacidades mentais e ESCOLHE ser filho da puta).

Chegamos no mercado e seguimos a lista de compras. É ai que a gente entende que por mais fluente que alguém seja, nunca será 100% fluente numa língua que não é a sua materna. Várias coisas na lista que eu não tinha nem noção do que eram!! E isso era só de vegetais...

Voltamos na hora do almoço e tudo correu normal. Ah, o aluno me pediu desculpas depois. De tarde, tinha compras de super mercado com o outro que se comporta direitinho, então foi bem tranquilo e quase relaxante, mesmo com o super mercado cheio de gente. A única distração foi um monitor de segurança. Como uma crianca, ele ficou se observando passar pela câmera algumas vezes, haha!

Voltamos um pouco antes do supper e a noite correu tudo bem também. Apesar dos pesares, o dia foi bom, e passou rápido devido as saídas.

Dia seguinte só trabalhei a tarde (14h as 22h) e foi bem tranquilo também. Não saimos do campus, mas demos uma boa volta na propriedade com 2 dos alunos. No fim de semana passamos muito tempo com os alunos e temos que arranjar atividades, por mais simples que pareçam. Eu acho complicado porque dá margem pro aluno pegar confiança e ficar folgado com os co workers as vezes.

O jantar foi meio tumultuado porque um deles não queria ficar na sala de jantar e fcou muito agitado. Levei outro tapa >.< Ai o shift leader botou ele pra fora e o menino fez o maior drama, coitado, mas no final tudo se resolve. São mesmo crianças grandes, com certas dificuldades. Não dá pra culpá-las.

A noite foi melhor, acho que tudo melhora com comida, né? Hahaha!

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 at 09:21
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ready, steady... go!

Minhas folgas são terça e quarta, e quinta a gente só tem 2h30 de shift para participar da reunião da casa - uma semana é a nossa reunião, na seguinte é na outra casa de college e a gente fica de olho nos alunos de lá. Quinta também é um dia feliz: é dia de receber nosso pocket money! Não é muito, mas já serve pra alguma coisa.

A reunião da primeira semana foi bem básica, só de boas vindas, comentar sobre os novos alunos, o que aconteceu naqueles 3 primeiros dias. Depois, pedi para falar com a nossa house coordinator sobre as folgas. Apesar de não termos um contrato assinado (ao menos não do tipo "vendo minha alma para o Mickey"), temos direito a folgas. Todo bimestre rola uns dias de "férias" para os alunos voltarem pra casa e a gente também tem folga. Eu estava mais preocupada sobre as férias de fim de ano, pois há uma chance das ~migas virem pra Londres <3. Tomara que role! Ai também aproveitei para refletir sobre minha viagem a Paris e acho que será melhor ir quando o tempo não estiver tão frio.

Na sexta achei que finalmente teria um gostinho da vida dos alunos no college... Mas tivemos o treinamento que ficaram nos devendo na semana anterior! O pior mesmo é que eu tive que acordar mais cedo (meu shift era depois do meio dia)...

O treinamento que ficaram nos devendo é o tal do Proact-Scip UK. É meio que uma aula de auto defesa contra pessoas que não podem ser responsabilizadas pelos seus atos. Ou no nosso caso, como nos defender caso os alunos se ponham ou nos ponham em risco.

A primeira parte foi teórica. De manhã. Cedo. Imagina minha (falta de) alegria? Na hora do almoço corremos pra casa comer, mesmo em meio a loucura que é a hora do almoço nas casas, e voltamos para a parte prática. A parte que todos esperavam.

Para a parte prática, precisavamos de espaço e fomos para o gym. Uns dias antes o Henrique tinha me levado lá, nao é um ginásio grande, mas tem uma quadrinha coberta, chão de madeira e alguns aparelhos para o uso das terapias com os alunos.

Mesmo essa aula prática foi meio teórica. Quer dizer, estavamos em um ambiente monitorado e controlado. A gente sabe que na vida real as coisas não acontecem cronometradas. Aprendemos a manter equilibrio e firmeza do corpo e nos defender e ataques próximos. Também aprendemos a conduzir alunos de forma calma quando necessário e até como fazê-los se moverem caso estejam empacados mas em situação de risco.

O problema é que temos alguns alunos bem grandes. Não gordos, mas altos. E eles têm muita força. Na verdade, eles não medem a força que tem. Na aula é fácil medir a sua força pra não machucar o amigo, mas na realidade a gente sabe que eles vão avançar com tudo.

Depois da aula ainda tivemos que voltar pras casas para "terminar" nossos shifts. O meu só ia terminar as 21h30. 12h de pé...

Voltei na hora da volta do college. No fim das aulas, os alunos voltam para as casas e toma um lanche. Tem aluno que só passa o dia no camp hill então vai embora direto (claro que alguém acompanha até o portão até que alguém venha buscar). Outros passam a semana aqui e ai os pais vem buscar na sexta depois da aula. O fim do dia é meio caótico porque é quando todo mundo chega nas casas, é muita gente junto tentando fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Os alunos tem que tirar os sapatos, os casacos e as mochilas no hall, antes de entrar na casa, e nem sempre eles fazem isso de maneira ordeira e rápida.

Como eu cheguei e a casa tava recebendo o pessoal no fim do dia, não tinha uma função específica, fiquei no escritório esperando ser instruída sobre o que fazer. Ajudei a pegar pertences de alunos da semana, pegar café pros pais, e no geral, ajudei a não ajudar porque tava muito perdida, haha!

Passado o turbilhão, me colocaram para cuidar de um menino que tem a síndrome do X frágil. No geral, é bastante independente, mas tem um pouco de dificuldade motora e tem pensamentos obsessivos. Ele pode passar manteiga no pão, por exemplo, mas faz comouma criança aprendendo a fazer isso. Toma bano sozinho, mas não é aquela maravilha. Conversa bem, mas só sobre aquilo que ele quer conversar. E o assunto pode ficar em looping eterno...

Como ainda não conheço tão bem todos os alunos, fiquei mais observando, e não fiquei sugerindo nada, fiquei meio seguindo o aluno pra ver como era. Foi bem tranquilo nesse quesito, ele foi bem bonzinho, fez tudo direitinho (do jeito dele) e foi fácil terminar o dia, só mandar dormir que tudo bem.

Fiquei meio frustrada de não poder ver como é quando eles vão pra aula, mas naquele dia... Muito cansaço! No fim foi bom que tivesse sido assim.

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segunda-feira, 7 de setembro de 2015 at 08:00
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o primeiríssimo dia de trabalho

O grande dia chegou! Segundona, 31 de agosto, primeiro dia de trabalho de verdade dos vountários aqui no camp hill.

Não sei que data especial era, mas foi feriado aqui na Inglaterra. E eu esqueci que me avisaram isso e fui pra minha casa de manhã cedo tentar resolver as paradas da imigração. Por causa do meu visto tenho que fazer um registro na polícia. Mas sei lá porque isso tem que ser feito na outra cidade, em Bournemouth, e não aqui em Ringwood. E bem, como era feriado, não ia dar pra fazer nada. Inclusive, de manhã, o campus tava deserto. Eu acordei cedo pra nada... Voltei pra casa e voltei a dormir, hehehe...

Os alunos começariam a chegar a tarde, na hora do meu shift, então fui mais cedo pro trabalho pra poder comer algo lá já e ai perguntar algumas coisas pra minha coordenadora.

O Junior já estava lá então ele aproveitou pra passar o perfil dos alunos desse ano. A metade mora durante a maior parte do ano na casa e outra parte só vem pra passar o dia. Óbvio que eu não memorizei quase nada, é muita informação! Mas acho que logo seremos capazes de identificar as necessidades de cada um.

Logo depois de passar a conduta de segurança em caso de incêndio, as famílias começaram a chegar. 3 deles já são bem conhecidos e moravam lá já antes. 2 já fizeram várias atividades na casa. E 1 era novo e tinha feito só algumas atividades lá. Como a maioria já estava familiarizada os pais não ficaram muito tempo. Só um deles, de um menino que precisa de mais atenção que os outros. Esses pais foram super bonzinhos, explicaram tudo direitinho... Foi aquele momento bem de dar dó da criança ter algum problema, sabe? Mas foi controlável, não foi nenhum momento Telethon da vida, haha (meu maior medo quando se trata de pessoas com necessidades especiais).

Eles chegaram do meio pro final da tarde e eu fiquei responsável exatamente por esse menino (só tem menino morando na minha casa) e foi bem tranquilo. Não tinha nenhuma atividade então só precisavamos esperar todo mundo se acomodar pra jantar e se arrumar pra dormir.

Os alunos da minha casa são bem independentes e sociaveis, apesar da maioria estar no espectro do autismo. As vezes eles ficam mais agitados ou obsessivos, mas é bem contornável. E é bem compreensível que eles ajam diferente do "resto", não dá pra perder a paciência (como eu perco com crianças saudaveis que não sabem se comprotar porque tem pais que não sabem educar os filhos que tem).

Esse menino que eu fiquei cuidado é o que menos fala, mas ele sabe se expressar, e se você prestar um pouco de atenção, é capaz de entender o que ele precisa sem muito esforço. Por exemplo, ele tomou chá e dpois de um tempo começou a apertar a virilha. Perguntei s precisava de banheiro e ele se levantou e foi sozinho. Quando ele ficou com fome, começou a perguntar do jantar, mas não fez nenhum drama, esperou quietinho escutando música (aliás, ótimo gosto musical, tocou Elvis e Madonna <3).

O jantar foi tranquilo, apesar de 2 alunos mais agitados. Como não estava todo mundo na casa, deu pra separar e foi uma refeição tranquila, calma, até silenciosa (eu estava morrendo de fome!). Depois da refeição são os alunos que ajudam o staff a arrumar a cozinha, para ensiná-los a ter mais independência.

Depois do jantar, hora do banho (apesar de não ser da cultura européia tomar banho diariamente, aqui eles toam pra ter consistência e ensinar que higiene pessoal é importante - se eles não tomam banho todo dia, podem começar a não querer tomar banho nunca). Essa hora foi mais problemática porque os pais disseram que o menino era mais independente e ele não era tanto assim. Ficou um tempão pra lavar o cabelo, devolver o shampoo na prateleira e pegar o sabonete. No fim, o Junior veio me ajudar a terminar o serviço, pois já estava ficando tarde. Depois foi hora de escovar os dentes e dormir. E por sorte esse menino faz tudo o que a gente manda, então ele deitou na cama e não deu trabalho. Teve outro menino que ficava tentando fugir do quarto, haha!

Logo depois a gente preencheu o log do dia e pode ir embora. Eu fiquei pra comer mais salada porque estava morrendo de fome! Não sei o que é, mas eu como e como e parece que não me satisfaz! Ao menos na minha casa a comida é saudavel, bastante salada e sempre tem proteina animal.

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segunda-feira, 27 de julho de 2015 at 10:30
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ano sabático e o voluntariado

Acho que nunca entrei em detalhes aqui sobre essa fase da minha vida. A gente lê por ai sobre um monte de gente que cansou da vida e resolveu tirar umas férias indeterminadas mas nunca de fato conhece uma, nunca é uma pessoa próxima. Porém isso não pode impedir de ir lá e ser a primeira do grupo, né?

Eu já estava de saco cheio do mundo do turismo há um tempo. Um campo ingrato que exige muita formação, com salários de chorar e nada de reconhecimento. E pra piorar, apesar de eu não estar no atendimento direto, fazia parte de vendas  (back office) e só tomava na cabeça. Já tava querendo dar um tempo de tudo e inclusive me planejando pra isso quando a crise veio e, combinado com o fato da gerente da área não ir com a minha cara (quem me levou pra lá foi o dono), levei o corte.

Foi alguns meses mais cedo do que eu estava me preparando, mas no fim foi até melhor. Já estava desmotivada e com a demissão, recebi as multas, fgts e seguro desemprego.

O seguro não é grandes coisas, mas eu também não tenho grandes contas fixas. O segredo é sempre estar preparado. Eu tinha um dinheiro guardado, que é o dinheiro que eu sempre separo do salário, geralmente pensando em uma viagem, mas que pode ser pra qualquer outra emergência, claro. E o fgts. Não sai gastando porque de repente tinha esse dinheiro "sobrando". Guardei pensando que seria melhor gasto quando tivesse um plano.

O único problema é que eu não estava preparada psicologicamente para ter tanto tempo livre pra mim. Eu geralmente planejo muito na minha mente o que vou fazer, como eu vou fazer, quais os resultados eu quero alcançar, mesmo que nada saia conforme o esperado. Eu fico perdida sem esse planejamento.

Fiquei sim um tempo perdida sem saber o que fazer, com mil coisas passando pela cabeça mas sem nada que me prendesse.

Acho que essa coisa de retorno de Saturno e crise dos 30 é um fatão da minha geração, é a nossa crise de meia idade. Somos uma geração atrasada, na verdade. Passamos pelas etapas nas idades certas, mas sem maturidade nenhuma. Ainda somos adolescentes quando nos formamos na faculdade, não temos maturidade nem experiência pra avaliar o que fazer com a oportunidade de escolher um emprego, uma profissão e uma carreira e muito menos para perceber que estamos fazendo escolhas das quais nos arrependeremos no futuro. E um tempo depois, quando a poeira baixa e nos acostumamos a vida adulta, entramos em parafuso nos perguntando o que fizemos das nossas vidas, desesperados para procurar fazer a coisa certa. Somos a camada predominante da população e é por isso que parece que de repente todo mundo está em crise e largando tudo pra trás. E em parte é isso que acabou me motivando a fazer o mesmo. Como muita gente da minha idade está passando por crises e tendo culhões para fazer mudanças na vida deles, isso me mostrou que eu não estou velha como eu pensava para fazer o mesmo.

Uma das questões que começou a me incomodar muito foi o fato de que eu sentia que não estava fazendo nada de significativo pro mundo com minha profissão. Comecei a questionar qual o sentido da vida e qual minha missão, o que eu deixaria pro mundo (já adianto que não tem nada a ver com a -falta de- vontade de ter filhos) e comecei a pesquisar como eu poderia ajudar o mundo.
Foi ai que, numa conversa de bar, um amigo que também estava de saco cheio da vida me contou sobre aquilo que está prestes a mudar nossas vidas.

Camp hill é uma filosofia de ajuda holística a crianças e jovens com necessidades especiais de diversos níveis. É um trabalho de socialização e inserção dessas pessoas de maneira completa e sensível. Existem instituições camp hill espalhadas pelo mundo.

Meu amigo tem amigos no camp hill da Inglaterra que cuida de crianças de 6 a 19 anos e fizeram a "propaganda" do lugar, contando do esquema do voluntariado.

Funciona assim: você entra em contato com eles demonstrando interesse em se candidatar a uma vaga de voluntariado, eles pedem para responder um formulário e fazem uma entrevista via Skype com o RH. Eles perguntam de tudo, como uma entrevista de emprego. Perguntam o que você faz, como conheceu o camp, se está ciente de que é um trabalho que também exige físico (ao contrário do que estamos acostumados, não é ficar sentado o tempo todo na frente do computador) e muito contato com os alunos e se acha que suas experiências de vida podem ajudar no dia a dia do voluntariado. Não é necessário ter inglês fluente, precisa conseguir se comunicar (se virar) no dia a dia e não precisa ter experiência em cuidados com pessoas com necessidades especiais, mas é preciso ter vontade de aprender e ajudar o próximo, de se comprometer e não deixar a peteca cair.

No formulário eles pedem 2 contatos para referências e depois do resultado (positivo) eles entram em contato com essas pessoas para pedir mais informações sobre você. Nessa fase também pedem um atestado de antecedentes criminais que pode ser aquele eletrônico.

Eu não achei a entrevista particularmente difícil, mas geralmente me saio bem nelas, não preciso de ensaio. Não é responsabilidade dos entrevistadores avaliar o nível do seu inglês, mas se você não conseguir interagir com essas pessoas, o que dirá do dia a dia com os alunos? Os entrevistadores são de diferentes nacionalidades, então o sotaque britânico não é um grande empecilho.

A resposta veio poucos dias depois, falando das referências e logo veio também as instruções para a solicitação do visto (no caso das pessoas sem passaporte europeu). Eu indiquei meu ex RH (que já havia se oferecido para dar referências na época da minha demissão) e uma amiga dos tempos de colégio, com quem fiz um trabalho para a opus dei back in the day.

Tirar visto é sempre chato. E nesse caso tinha que descobrir na unha todo o tipo de informação. Começa pelo fato do site da imigração do Reino Unido ter muita informação e não ser muito claro que caminho você tem que tomar para tirar dúvidas ou para solicitar o visto. Entrei em contato com a embaixada que explicou que os consulados aqui não emitem vistos (wtf?)  e que eu deveria procurar um centro de visto  (tipo o do Canadá). A primeira etapa é toda eletrônica. No caso desse voluntariado eu deveria solicitar um visto Tier 5 de trabalho voluntário. Como vou passar 1 ano, antes de tudo deveria pagar uma taxa de "seguro saúde" de 200 libras (sem isso não tem como prosseguir) e preencher o formulário.

No caso desse camp, eles providenciam moradia e alimentação durante o voluntariado, então para a solicitação de visto eu não precisei provar nenhum tipo de fundo financeiro (durante o período eles pagam 35 libras por semana para "gastos pessoais" como compra de produtos de higiene).

Feito os procedimentos online e pago as taxas (mais uns US$ 300) você pode agendar um dia para a entrega desses documentos  (formulários e a carta de patrocínio que a instituição deve providenciar - pode ser a cópia que enviam por email) e fazer o cadastro biométrico. Ai o passaporte e os documentos são enviados  (no caso do Brasil) para Bogotá onde será avaliado. Todas as etapas são informadas por email  (desde a chegada do passaporte no consulado colombiano até o despacho final para o Brasil e a data em que deve ser retirado) mas o resultado você só fica sabendo quando retira o passaporte  (ou recebe via sedex).

Confesso que sempre fico tensa sobre os resultados pois sabemos que mesmo que não tenhamos nada contra nosso nome, os consulados podem negar um visto só porque eles tem esse poder... Não é pessoal, é roleta russa mesmo  (para quem não "deve" nada).

Com toda a burocracia resolvida, ainda falta comprar a passagem, que deve ter validade de 1 ano. Não adianta pegar essas de promoção online que não permitem marcar a volta pra mais de 3 meses depois do embarque. Elas são baratas exatamente porque valem por menos tempo. Eu escolhi cotar com uma empresa especializada em intercâmbio pois estão acostumados com esse tipo de passagem e então tem acesso a uma gama maior de opções. Como sempre, é bom planejar viagem com "margem de erro" e estou cotando a chegada com 1 dia de antecedência do dia que devo me apresentar no camp.

Além disso, tenho que organizar minha vida no Brasil para essa ausência de 1 ano. O que significa empacotar minhas coisas que estão em São Paulo e levar de volta para a casa da minha mãe no interior. Trabalho nada fácil, uma vez que minha vida acontecia principalmente em SP nos últimos 5 anos (ir pra "casa" era só a passeio) e eu tenho a mania de acumular coisas (um monte de sapatos, de bichos de pelúcia, de toy art, etc)...

Sem contar, claro, de me despedir dos amigos. Já marquei uma data, e claro que que tem gente que não vai poder ir e eu terei que encontrar em outras datas.

"Deixar as coisas pra trás" não é uma decisão simples nem covarde. Exige desprendimento e coragem para sair da zona de conforto, pra se aventurar no novo e desconhecido e principalmente pra deixar de conviver com quem a gente mais ama. E pra mim, de tudo, o que vou mais sentir falta vai ser de poder encontrar com meus amigos quando dá na telha, ou ver minha mãe a cada 15 dias, ou passar o fim de semana com a Brisa...

(to be continued... for sure!)

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Pode me chamar de Vy. Balzaquiana com cara de universitária. Turismóloga de formação. Rodinha não só nos pés, mas no coração também. Introvertida. Blogueira old school.

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